No ano passado, meu marido passou por uma cirurgia para tratar o refluxo gastroesofágico.
O procedimento tinha como objetivo fortalecer a válvula entre o esôfago e o estômago. No entanto, durante a cirurgia, uma parte da parede do estômago, que já estava muito fina, se rompeu. Como consequência, foi necessário remover grande parte do estômago.
Quando ele acordou da anestesia, o médico explicou que apenas cerca de 20% do estômago havia sido preservado.
O que é a síndrome de dumping?
Após uma gastrectomia (remoção parcial do estômago), pode ocorrer a chamada síndrome de dumping.
Como os alimentos passam muito rapidamente para o intestino, podem surgir dois tipos de sintomas.
O dumping precoce acontece logo após as refeições e pode causar suor frio, palpitações, tontura e náusea.
Já o dumping tardio ocorre entre uma e três horas depois de comer. O açúcar é absorvido rapidamente, provocando uma liberação excessiva de insulina e, consequentemente, uma queda brusca da glicemia (hipoglicemia). Nesses casos podem surgir tremores nas mãos, fome intensa, dor de cabeça, tontura e suor frio.
Com refeições menores e mais frequentes, os episódios de dumping precoce praticamente desapareceram. Porém, o dumping tardio ainda acontece de vez em quando.
O cérebro quer comer mais, mas o estômago não consegue
Enquanto eu ainda estava no Japão, comprei alguns livros sobre síndrome de dumping e controle da glicemia.
Descobri que não é apenas a quantidade de comida que importa, mas também a ordem em que os alimentos são consumidos.
A recomendação era:
- Primeiro, alimentos ricos em fibras, como saladas;
- Depois, proteínas e carboidratos;
- Por último, frutas e sobremesas.
Ou seja, evitar começar a refeição pelos alimentos doces.
Expliquei tudo isso ao meu marido por telefone, mas, quando a comida estava à sua frente, era difícil mudar um hábito de toda a vida.
Em festas, por exemplo, ofereciam refrigerantes ou sucos, ele acabava acompanhando o ritmo das outras pessoas e comia mais do que seu estômago suportava. Também era difícil recusar uma sobremesa.
O resultado era quase sempre o mesmo: depois da refeição, ele passava mal.
A ideia de “comer com os olhos”

Quando me mudei para o Brasil, comecei a registrar diariamente as refeições do meu marido e a observar quando ocorria o dumping.
Logo percebi duas coisas:
- Os episódios aconteciam com mais frequência após o café da manhã.
- Quando havia muitos alimentos sobre a mesa, ele sentia vontade de experimentar tudo.
Percebi então que a refeição não alimenta apenas o corpo, mas também os olhos.
Precisávamos fazer o cérebro sentir que a refeição era abundante, sem sobrecarregar o estômago.
Foi assim que surgiu uma ideia simples.
Passei a servir o café da manhã em um prato grande, organizando pequenas porções de:
- salada;
- pão;
- batata;
- frutas.
Também acompanhava um café sem açúcar. Em alguns dias acrescentava iogurte ou gelatina.
Mesmo com pequenas quantidades, o prato ficava colorido e parecia muito mais completo.
Além disso, combinamos uma regra importante:
Não era obrigatório comer tudo.
No Japão, somos ensinados desde pequenos que deixar comida no prato é um desperdício.
Mas percebemos que forçar a alimentação para “não desperdiçar” era muito pior para a saúde.
Até o café podia ficar pela metade. Não havia problema.
O objetivo era criar uma sensação de satisfação visual, permitindo que o cérebro também se sentisse satisfeito.
Na primeira manhã em que fizemos isso, meu marido ficou muito feliz e disse:
“Hoje não tive nenhum episódio de dumping!”
No dia seguinte, aconteceu o mesmo.
É claro que não podemos afirmar que essa foi a única razão da melhora.
Mas acreditamos que a combinação entre a ordem correta dos alimentos e uma refeição visualmente satisfatória tenha contribuído bastante.


Alimentar o corpo e também o coração
Hoje seguimos algumas regras simples:
- Comer a salada primeiro;
- Não se obrigar a terminar toda a comida;
- Antes de sair para comer fora, ingerir pelo menos uma folha de alface ou algum alimento leve em casa.
Ainda dói pensar em deixar comida no prato.
Mas aprendemos que preservar a saúde é muito mais importante.
Para mim, a alimentação não serve apenas para fornecer nutrientes.
Ela também pode ser um momento de prazer, apreciado com os olhos.
Continuaremos observando o que funciona melhor para o meu marido e ajustando nossa rotina pouco a pouco.
Observação: Este artigo relata a experiência pessoal do meu marido. Os sintomas e o tratamento da síndrome de dumping variam de pessoa para pessoa. Sempre siga as orientações do seu médico ou nutricionista.